sábado, 29 de abril de 2017

Títulos, carreiras e importancias




Quando cheguei na América e resolvi abandonar a carreira jurídica, muita gente me questionou - tipo, muita. Eu estava fresquinha do meu mestrado na Italia, com um ano e quebradinhos de experiência como professora de ensino superior, e um mundo de possibilidades de carreiras, especialmente acadêmicas... Mas não quis nada disso: virei as costas, e não olhei mais pra trás.

Formatura de Letras - porque eu ja queria fazer varias coisas ao mesmo tempo desde sempre.


E aqui, comecei a trabalhar integralmente com turismo. E me apaixonei. Acho que todo mundo sabe disso - e vê, hoje em dia, que eu estou feliz com a escolha profissional que fiz.

Minha primeira temporada como guia, em NYC, com minha passageira preferida: minha prima!


Mas nas indas e vindas de interação social, tem uma cara-careta que as pessoas fazem que é digna de estudo antropológico: quando respondo qual é a minha profissão.

Se voce trabalha num meio de exatas ou biomédicas, talvez você não sinta tão na pele essa emoção, mas a galera de humanas sofre... Turismólogos, biblioteconomistas, sociólogos, dentre outros, apesar de terem formação universitária tão superior quanto aos outros colegas de canudo na mão, são normalmente a piada da mesa. E quando eu falo que trabalho com turismo, a frase sequencial é "Hum... que delicia! Você deve viajar muito!"

Sim, viajo. Viajo porque gosto, viajo como hobby mas definitivamente não viajo tanto a trabalho. Conheço engenheiros que viajam o ano inteiro. Médicos que não saem de convenções e conferencias. Mas eu mesma, normalmente viajo, mesmo que a trabalho, pouco - se comparado com outras carreiras. E detalhe: ja gostava, e ja viajava, antes - muito antes, desde sempre...

Muito antes de trabalhar com turismo, estava eu viajando em Buenos Aires, quando avistei o belíssimo prédio da faculdade de Direito...

Meu trabalho tem uma parte técnica também. Confesso que com a integração entre tecnologia e vida, hoje em dia, é difícil pensar num trabalho que não tenha uma parte técnica, especialmente conectada a informação. Mas o tipo de habilidade que o meu trabalho requer vai alem das tecnicidades: preciso de 1) criatividade; 2) habilidade de negociação; 3) muita, mas muita, disciplina. Apesar de ter um chefe, eu não sou gerenciada no meu dia-a-dia: faço o que eu achar que tem que ser feito. Recebo ordens de projetos específicos, e tenho prazos de entrega, mas como meu papel envolve desenvolvimento de produto, minha principal função é criar e conectar.

E eu tenho um titulo: sou gerente. De operacoes e desenvolvimento. Mas acho esse titulo uma bosta. Mas dado o fato de que algumas pessoas so vão atender o telefone ou responder meus emails se eu tiver um titulo relativamente importante, então, me deram esse ai.

Apesar da descrição total e completa em primeira pessoa, esse post tem mais a ver com duas reflexões: 

1) Títulos e carreiras: se voce pudesse ser/fazer qualquer coisa, qualquer uma, qual seria? O que você faria? Sabe quando você pergunta isso pra crianças, que não tem noção de status social, hierarquias, etc, e elas respondem "bailarina!", "astronauta!", "lixeiro", etc... Essa é a resposta mais genuína que podemos receber... Então, entra ai em contato com sua criança anterior... e pensa... de verdade: o que você gostaria de estar fazendo profissionalmente que te traria felicidade/prazer como se fosse um hobby?


2) Importancias: se voce não esta na sua carreira dos sonhos, se você todo dia trabalha e não esta feliz, o que esta te separando da vida que vai te trazer felicidade? E se você esta feliz, você esta feliz por que? O que é realmente importante pra você?


Pensem ai... Eu penso nisso com uma certa frequência, é dessas reflexões que nascem vontades de fazer cursos, escrever, mexer no jardim... mesmo que eu não mude completamente de profissão (ate porque, agora, não quero), tenho sempre os "colaterais" que me trazem muita alegria... E o negocio, no fim das contas, é ser feliz né?





segunda-feira, 24 de abril de 2017

O que aprendi na Tailandia



E nao é que fomos parar na Tailândia mesmo?

Na praia de Phi Phi, num dos muitos passeios a pé que fizemos com esse cenário...


Até agora estamos tentando assimilar a experiência que foi essa viagem, e quando comecei a escrever aqui, pensei em narrar a viagem assim como ela aconteceu... E apesar de termos conhecidos varias pessoais legais, termos dicas praticas boas, e podermos explicar tecnicamente vários pontos da viagem, o fato é que essa foi uma experiência muito além do entrar no avião com amigos e roteiro... Então, se voce esta esperando um post "guia", sinto desapontar, mas não sera esse...


Pronto! Uma foto de um mapa colorido pra nao desapontar muito as pessoas...

Em seu especial do Netflix, Trevor Noah fala que "viajar é o antidoto da ignorancia", e recomenda que todo mundo viaje muito. Eu sempre gostei de viajar, mas confesso que sempre visitei destinos "seguros", e apesar de ter um espirito (relativamente) aventureiro, eu sou rápida a me entregar a uma ideia de cruzeiro nas Bahamas ou all-inclusive resort no Mexico: a vida simplesmente fica mais fácil assim - essas são as viagens de férias que eu considero FÉRIAS.

Curtindo um "dolce far niente" em Cancun...


E ir pra Tailandia nao foram essas férias ai de cima: acordei cedo praticamente todos os dias, suei nas caminhadas, nos tuk-tuks, nos barcos, esperei em muito aeroporto (e porto), ficamos em hotéis semi-comfortaveis, tivemos que decidir o que comer (e onde comer) todos os dias 3 vezes ao dia... Enfim, essas coisas que quando voce esta de férias "pernas pro ar" normalmente voce não se preocupa...

Mas essa dinamica trouxe coisas boas. Muito boas. Umas delas foi que acabamos explorando lugares e tendo tempo para analisar algumas coisas com calma, que se estivéssemos no esquema resort-relax, não teríamos explorado. Exemplo: numa das esperas de aeroporto, resolvemos entrar numa farmácia. E foi ai que li (ou tentei ler) com calma os rótulos de muitos cosméticos que as asiáticas de maneira geral usam. 70% deles tem como objetivo clarear a pele. Os outros 30% são dedicados a evitar/tratar acne, envelhecimento e promover hidratação. Muitos deles contem ingredientes como veneno de abelha ou de cobra, muco de lesma (mucina), pérola, caviar...






Eu me senti MUITO segura. Apesar das ruas cheias nas grandes e pequenas cidades, da pobreza evidente, bem como diferenças sociais, o povo tailandês é muito educado, e a violência não parece ser uma realidade do dia-a-dia deles. Estivemos em festas com mais  de 50 mil pessoas, muito álcool e muita oportunidade para brigas. Não vimos nenhuma. As pessoas simplesmente parecem ter uma natureza pacifica. 

Estivemos nessa festa (Full Moon party em Koh Phangan)

E estivemos nessa festa (Songkran na Khao San Road, em Bangkok). ZERO CONFUSAO
Pelo que entendi, muito disso se deve a religião: a maioria dos tailandeses são budistas, e por isso, acreditam em karma - se voce fizer algo com alguém, bom ou ruim, o mesmo vai voltar pra voce... Interessante ne? Essa lição foi meio dura, porque sempre acreditei que um dos problemas de violência no Brasil era devido as injustiças sociais, mas como explicar a violência num contexto de pais que se diz religioso? A maioria esmagadora de brasileiros acredita em Deus e pratica uma religião crista... E os pecados? E as consequências de quem pratica a violência? Porque não pensamos da mesma forma que os tailandeses?



Outra coisa incrível: Conrado e eu nos conectamos nível oitavo-dam-faixa-preta-dupla. Não sei se era o fato de simplesmente não entendermos nada do que estava ao nosso redor (não so a lingua deles é outra, como o alfabeto também), e tudo ser novo e misterioso, mas alguma coisa aconteceu que clicou nas nossas cabeças e ficamos muito unidos. Mas sem forçação de barra: estávamos simplesmente curtindo as coisas juntos, meio que em piloto automático, e num dado momento percebemos quão conectados estávamos um com o outro. E notem que não estávamos no lugar mais romântico do planeta - sim, estávamos la pra um casamento, cercados de casais - mas os momentos onde a coisa veio a tona mesmo foram tão aleatórios e não-programados que acabaram chamando nossa atenção... Não tivemos nenhuma conversa profunda, nenhum momento de catarse, nada disso: parece que estávamos ambos presentes. Não estávamos focados no passado, nem no futuro. Estávamos ali. Naquela hora. Naquele momento. Juntos. Eu, que pratico yoga, tento meditar e sou familiarizada com a pratica de mindfulness fiquei boquiaberta com a naturalidade como as coisas aconteceram... O que aprendi: deixa vir. Deixa fluir... Nenhum esforço de concentração é necessário pra viver no presente...

Num dos muitos voos, apenas sendo felizes juntos...


Outras coisas que também foram aprendizados muito marcantes:

Elefantes
Nao so os elefantes que vimos, mas o simbolismo: o elefante esta em todos os lugares - cervejas, templos, souvenirs, tudo. As razoes são religiosas também, pelo budismo e hinduísmo, mas mesmo quem não sabe muito sobre eles, sabe isso: trata-se de um animal encantador. Um gigante de cara mansa. Um bicho que poderia destruir tudo se quisesse, a patadas, mas ao invés disso, se comporta pacifica e calmamente... Ja entenderam a lição né?

Lembrancinhas com elefantes que trouxemos para nossa casa...

E lembrancinhas para amigos...


Flores e cheiros
Eu sou chegada numa interação com a natureza, e reparo muito nas cores e cheiros. Na Tailândia, essas cores e cheiros são espetaculares. Você sente o aroma de jasmim ate nas zonas urbanas. Arvores de frangipani são tao comuns quanto castanheiras. Orquídea é mato: tem em todos os lugares. Eles usam muito incenso a base de sândalo, e colocam esses incensos acesos nos jardins e templos em frentes as casas, confundido um pouco nossos sentidos: de onde esse cheiro tao único vem? Não pode ser dessa flor! Não pode ser desse jardim! E ai voce vê a fumacinha e se da conta do incensinho queimando la no meio... Ao mesmo tempo, no mesmo passo que voce sentiu aquele cheiro maravilhoso, vem um cheiro forte de fritura ou de esgoto, e no proximo passo cheiro de flor novamente... Esse contraste me fez relembrar o quanto os contrastes são importantes: o que adianta sentirmos so cheiros deliciosos, sem termos conhecimentos dos cheiros ruins? Sem a dicotomia, não conseguiríamos apreciar - não conseguiríamos nem reconhecer! - o que é bom...



Sabores
A gente ja comia comida tailandesa aqui nos Estados Unidos, então não estávamos completamente despreparados: sabíamos bem o que pedir e o que comer. Mas como ja podíamos imaginar, a comida local tem um enoooorme diferencial - os ingredientes locais. Aqui, comemos tom kha ou pad thai deliciosos, mas na Tailândia... Os sabores são mais frescos, talvez porque alem dos ingredientes 100% locais e naturais, eles vem acompanhados da vibe local. Um fator super positivo: com minha dieta pescetariana eu me dei super bem, ja que por la não faltam frutos do mar e peixes, bem como o melhor tofu que ja experimentei, e muitas frutas deliciosas. A dieta deles é super balanceada, as pessoas tem aquela disposição em tempo integral que nós, comelões do ocidente, parece que estamos perdendo com nossas comidas envenenadas e em porções exageradas...

Tom Kha é essa sopinha a base de leite de coco... Normalmente feita com frango, eu pedia a minha so com vegetais ou com tofu...
E esse Pad Thai de camarão era meu prato básico: comi quase todos os dias.


E logico: frutas frescas... deliciosas!


Eu sei que nao estou fazendo jus a todas as coisas maravilhosas que vivemos, mas como falei no começo, essas são coisas que aprendi, que não sabia antes (ou tinha esquecido), mas que so vivi porque estive la, em primeira pessoa, sentindo essas sensações, tendo esses momentos... Minha única recomendação é: visite.